Estação Carandiru e PCC

18/08/2006

Terminei de ler ontem de noite, durante o vôo para Uberlândia, o livro “Estação Carandiru”, do Dr. Dráuzio Varella. É um livro impressionante, com imagens fortes. Terminei de ler o livro com uma sensação dúbia. Não há como se deixar envolver pelo ambiente da prisão, que segue normas rígidas, diferentes das que estamos acostumados; às vezes extremamente justas, às vezes, extremamente cruel. A impressão que fica é de que estamos lidando com pessoas de outro planeta, para as quais os critérios de julgamento da sociedade não se aplicam.

Em tempos de PCC, a leitura se torna ainda mais importante. Acho que o próprio Dráuzio se surpreenderia com a mudança do ambiente da cadeia desde os tempos do Carandiru até hoje. E olha que fazem menos de 10 anos. Muito do que o PCC faz pode ser entendido quando se aprende como funciona a cadeia, e o quanto deste funcionamento depende do próprio trabalho – e da boa vontade – dos presos. Mas por outro lado, me parece evidente que o PCC é um fruto do oportunismo, uma distorção das próprias regras da cadeia. Vou explicar porquê.

Em Carandiru, vemos como o equilíbrio frágil da cadeia se mantém. Os funcionários sabem que dependem dos sentenciados, e se aproveitam da desunião destes para manter a cadeia funcionando. A cadeia vive uma lei individualista; o equilíbrio se garante por maiorias frágeis, como a da faxina, e pela lei do mais forte. Por exemplo, a faxina de cada pavilhão é independente, e um não se mete com a vida do outro.

Já o PCC – pelo pouco que li, incluindo um depoimento do Marcola – transcende esta organização frágil, e cria uma rede mais rígida. O motivo alegado é melhorar as condições do sistema carcerário. Seria bom se não fosse trágico. O motivo real é outro: o exercício do poder, pelo prazer de exercê-lo.

Em Carandiru, aprendemos que malandro que é malandro só respeita uma lei: a lei do mais forte. E que um grupo é mais forte que um indivíduo. Toda cadeia funciona com base nisso. O PCC se aproveita deste princípio. É a lei da cadeia tentando invadir as ruas.

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