O banheiro está quebrado

26/08/2007

Quantas vezes você já entrou num estabelecimento e viu uma placa dizendo que o banheiro estava quebrado?

Eu duvido que os funcionários de uma videolocadora, farmácia, ou loja de conveniência consigam ficar o dia inteiro sem usar o banheiro.  Por outro lado eu entendo que manter um banheiro público limpo não deve ser uma das atividades mais agradáveis ou compensadoras do mundo. No entanto, qual é a mensagem subliminar? Que o negócio não se importa com você como ser humano. Só querem você como cliente. Suas necessidades humanas – mesmo que possa ser bastante imediatas, até emergentes – não contam.

Essa semana minha esposa levou o nosso carro (um Citröen C3) para a revisão de 15.000 km. Fora o fato de que o carro só precisa de trocar o óleo, completar água, essas coisas, a cada 15.000 km, ainda somos agradavelmente supreendidos a cada uma das nossas pouquíssimas visitas à concessionária com um atendimento de primeira.

Obviamente, esse atendimento todo custa mais caro. Mas quanto custa? Assim como eu, muita gente tem se mostrado disposta a pagar. O valor está embutido no preço do carro, que a gente só paga uma vez – e depois, tem retorno sempre. Isso se transforma em uma experiência realmente compensadora.

A propósito, este post foi inspirado por dois comentários do Seth Godin: “Lying to your customers” e “Follow Through“. As duas coisas são intimamente relacionadas. Mentir para os clientes começa usualmente porque a empresa desiste de levar seus princípios até o fim. Com o tempo, a mentira aumenta até que o cliente perceba. O mesmo com o atendimento das montadoras; foram cortando custos, mantendo suas margens, até que o serviço ficou inadmissível. Agora, uma montadora (a Citröen) está usando isso como diferencial. Oportunidades como essas se abrem sempre que alguém desiste de levar seus princípios até o fim – basta ficar de olho.


Origami

18/09/2006

Gosto de atividades que requerem paciência, porque elas são um excelente remédio para a ansiedade. Durante um tempo, pintei figuras em miniatura de metal, principalmente personagens de fantasia. As miniaturas sem pintura sumiram do mercado, e desde então estou procurando um hobby parecido. Nesse final de semana, resolvi pesquisar um pouco sobre origami, e fiquei fascinado com o que vi.

Dragão Chinês de Origami

Dragão Chinês – Criação de Satoshi Kamiya

Para quem já viu sapinhos de papel (ou mesmo o unicórnio do filme Blade Runner), a complexidade dos origamis atuais é impressionante. Houve uma grande revolução técnica, que permitiu superar os limites tradicionais. Antigamente, era difícil fazer figuras com mais de quatro extremidades; hoje, apenas com a dobra do papel e sem nenhum corte ou cola, artistas como Satoshi Kamiya produzem figuras impressionantes como o dragão chinês representado acima.

Falando em Kamiya, há duas grandes escolas de Origami hoje. Uma escola se baseia no estudo matemático das propriedades das dobras de papel, mas sem perder de vista os aspectos artísticos. Um dos principais mentores dessa escola é Robert Lang, um físico e engenheiro que abandonou uma carreira de ponta (com mais de 40 patentes em semicondutores e lasers) para se dedicar exclusivamente aos origamis. Lang desenvolveu diversos programas para analisar figuras e produzir o “crease pattern”, ou seja, o padrão de vincos do papel. Para quem acha que aí perde a graça, é preciso lembrar que não basta saber quais as marcas do papel; a sequência para produzir um origami não é computada, mas é essencial para que o modelo seja viável. A escola também valoriza adequadamente a destreza e o senso estético do artista. Já o japonês Satoshi Kamiya é um representante da escola ‘humana’ do origami. Ele é capaz de criar figuras como a apresentada acima graças a um imenso talento natural; nas palavras dele, ele “vê a figura completa, e depois vai desdobrando”.

Para meros curiosos, há dezenas de bons sites sobre o tema. Há também informações curiosas sobre aplicações práticas de origamis no mundo moderno – por exemplo, em problemas como a dobradura correta de um airbag de carro (um “origami 3d”), ou o desenho de estruturas dobráveis em aplicações de engenharia espacial. Nada mal para uma arte milenar que pode ser praticada apenas com as mãos e um pedaço de papel.


Diga onde moras e te direi quem és

28/08/2006

De um tempo para cá, me peguei pensando em mudança. Mudança de endereço, procurar um lugar novo para viver. Quando comecei a pensar nisso para valer é que “caiu uma ficha”. Parece meio óbvio, mas para mim foi uma revelação.

O lugar onde moramos diz em boa parte quem somos nós. Não somente pelos atributos físicos da casa, pela proximidade de trabalho, comércio, escola, ou pelo valor financeiro. Mas principalmente por causa da vizinhança, da comunidade que existir em torno dela.

Uma das piores coisas que existe é morar em um lugar onde a gente não se identifica. Para viver bem precisamos ter alguma identidade com o lugar, com os vizinhos. Não que precisemos ser amigos de todos, muito pelo contrário. Mas porque é necessário que a comunidade reflita aquilo em que acreditamos.

Me peguei pensando nisso quando avaliei seriamente a hipótese de morar em um prédio em um bairro bem localizado, seja aqui em BH, seja em Uberlândia. Não consegui me imaginar morando em um lugar assim nem lá nem cá. Não consegui me imaginar interagindo com os vizinhos. O problema não é financeiro, mas cultural. Não é questão de ter mais ou menos cultura, mas de ter valores culturais diferentes. Principalmente, de conviver mesmo que superficialmente com pessoas que não compartilham valores parecidos com os seus.
Depois que pensei nisso, comecei a refletir mais seriamente sobre o lugar onde quero morar… e agora tenho certeza de que, estando no lugar mais certo, fica muito mais fácil atingir nossos sonhos e sermos felizes. Fica mais fácil desenvolver relacionamentos agradáveis e construtivos, e principalmente, fica mais fácil manter o foco em nossos sonhos e metas. Pena que esta seja a parte fácil… porque escolher o lugar certo ainda continua sendo muito difícil.


Linux em casa, um balanço realista

27/08/2006

Uso Linux quase exclusivamente em casa há dois anos. Aliás, em duas casas – na minha “casa de verdade” em Uberlândia, e também em BH, onde fico a trabalho. Fui um dos usuários pioneiros do Ubuntu, desde um pré-release do Warty, lá pelos idos de setembro de 2004. Já usei o Ubuntu em ambiente profissional, para jogos e para uso pessoal simples. No ambiente de trabalho, uso o Windows XP em uma rede baseada no 2003 Server, então acho que tenho um bom parâmetro de comparação.

De forma geral estou satisfeito. Os motivos que me levaram a adotar o Linux foram simples: maior segurança (especialmente para poder navegar tranquilo na Web); motivos éticos, pois não acho legal, como profissional de TI, usar uma cópia pirata do sistema operacional; e também porque tenho interesse em desenvolvimento de aplicações Web, e a plataforma Linux oferece ferramentas interessantes. De lá para cá não tive nenhum problema de ataque ou de vazamento de informação, então estou satisfeito com a segurança, que para mim é o critério principal.
Agora os problemas. A coisa mais irritante para um usuário são as pequenas limitações que encontramos no dia a dia. E nesse ponto, o Linux ainda dá nos nervos. Notam-se pequenas coisas, itens onde claramente falta polimento. Em alguns casos falta funcionalidade, em outros, falta aquele capricho na interface. Em vários casos falta integração entre os aplicativos. Por exemplo, querer comparar o VNC (ou o VINO) com o Terminal Server do XP é brincadeira, tanto pela qualidade como pela integração de funcionalidade. É possível compartilhar janelas individuais no Windows XP, usando para isso o MSN. A parte de multimídia também deixa muito a desejar, de forma geral, especialmente na parte de vídeo. A funcionalidade existe, mas a interface precisa melhorar muito.

De tudo, há uma coisa que eu acho que poderia ser feita para mudar o cenário a longo prazo. Sinto falta de um ambiente de desenvolvimento simples, similar ao que o QuickBasic/VisualBasic e o HyperCard representaram há alguns anos atrás. Estas ferramentas de desenvolvimento permitiam que qualquer usuário escrevesse pequenos programas para seu computador. Muitas empresas comerciais de software começaram assim, com experimentos domésticos amadores, e depois evoluiram para produtos profissionais. O curioso é que a Microsoft abandonou esta prática depois de dominar o mercado – mais ou menos do mesmo jeito que abandonou o IE depois de derrotar a Netscape, para depois ser pega de surpresa pelo Firefox. Há uma oportunidade de ouro aqui, para fazer o mesmo: criar uma plataforma de desenvolvimento que permitirá que muitas dessas lacunas de software para Linux sejam preenchidas de forma simples, criando um novo “ecosistema” de desenvolvimento de software. É um ciclo virtuoso esperando para acontecer.


Política e falta de modéstia

25/08/2006

Me lembro que, há poucos anos atrás, não era costume dar nome de monumentos a pessoas vivas. Nomes de rua, avenidas, teatros – só depois que a homenageado falecesse. Alguns até achavam que dava azar homenagear alguém vivo! Mas de uns tempos pra cá a coisa relaxou. Começou com homenagens a pessoas que já tinham vivido uma vida longa, e que se retiravam da vida pública. Mas com o tempo a coisa foi piorando… e hoje, qualquer presidente de clube acha de bom tom colocar seu nome em uma sede social, ou coisa que o valha. Coisas da política. Mas um pouco mais de modéstia não faria mal nenhum.


Google, Brasil Telecom, ou… tomando decisões com base em fatos

23/08/2006

Não, não basta usar o Google para buscar coisas na Web. As empresas que entenderem como Google funciona terão uma arma competitiva fortíssima à sua disposição. Dizem que o Google é uma empresa de engenharia de sistemas que se dispôs a resolver o problema, o que ela faz muito bem. Como uma empresa de engenharia, o Google inova e rompe paradigmas. O Google vem inovando dia a dia, e mostrando que há caminhos alternativos às práticas convencionais de mercado. Afinal, quem iria suspeitar há 6 ou 7 anos atrás que uma empresa que era capaz de montar um rack com placas de PC comuns, memória comprada a preço de liquidação e HDs que ninguém compraria para o filho poderia dar certo?

O Google também tem fama de ser uma empresa discreta com relação às suas realizações, que faz muito e fala pouco, o que alimenta a aura de mistério. O mais interessante é que no fundo, a grande inovação do Google não é tão espetacular assim, e pode até parecer antiquada. Trata-se de olhar os números, de fazer contas. É daí que vem o “bottom line”. E o Google sempre fez contas, motivo pelo qual muitas vezes pareceu ter ido na contramão de uma tendência, para depois sair por cima. E isso… não é tão complicado assim. O problema é que a maioria das pessoas se esquece de questionar e compra pronto aquilo que o mercado lhe apresenta – mesmo que não lhe sirva.
No Brasil, há um exemplo deste tipo de postura: a Brasil Telecom, que foi a única “grande operadora” que no meio do oba-oba do início do século XXI que decidiu ir na contramão, deixando propositadamente de cumprir as metas de universalização da Anatel (apesar de dizer o contrário no seu site!). Enquanto todas operadoras investiam milhões, primeiro para cumprir as metas, e depois em marketing para vender seus serviços de longa distância (o famoso “disque 12, 15, 21, 31″… e por aí vai), a BT ficou de fora… e se deu bem. Deixou de gastar uma fortuna – economizou. E hoje, todo mundo sabe que esse negócio de telefonia de longa distância é ilusão, ao ponto de várias empresas terem deixado de anunciar, e até mesmo de explorar o serviço. Foram visionários? Talvez. Em retrospecto, tudo é fácil. Mas será que não apenas uma questão de avaliar os números?


BaseLine

23/08/2006

Sinto falta de boas revistas para ler online. A maioria é apenas uma coleção de “press releases” e matérias superficiais, com pouca informação e muitos anúncios. Na minha nova função, mais gerencial, sinto falta de estudo de caso, e de informações objetivas. A revista online BaseLine tem justamente isso – artigos bem escritos, onde se nota o esforço de pesquisa, com informação de qualidade.


30 dias

20/08/2006

Daqui a exatamente um mês, completo 40 anos. Engraçado pensar nisso. Envelhecer não é fácil pra ninguém. Quem me conhece talvez se surpreenda de me ver escrevendo sobre isso; não sou lá de dar muita bola, acho que faz parte. Mas não dá para ignorar o significado da data, do número redondo.

Hoje cedo vi o Adriano Falabella na TV, é uma cena meio flashback. O cara é certamente mais velho que eu, deve ter aí seus 45 anos, e continua lá, cabeludo e falando gíria, apresentando a “Enciclopédia do Rock”. Fico pensando, é legal envelhecer assim, ou é ridículo? Sei lá. O engraçado é que a gente não se sente envelhecendo. O corpo não mente, a barriga, os cabelos (seja ficando brancos, seja caindo) não nos deixam mentir.

A partir de amanhã, vamos ter contagem regressiva. Dia após dias, 30 dias para os “enta”. Espero chegar bem lá…


Eleições e Internet… para 2010

19/08/2006

Estamos vivendo a reta final do processo eleitoral no Brasil. Talvez eu esteja meio de fora do processo, mas acho que a propaganda via Internet ainda é pouco (e mal) utilizada. Hoje, nos EUA, o poder da Web como meio político (especialmente dos blogs) já é evidente. Para quem não sabe, o Senador Liebermann – um político tradicional e influente – perdeu a disputa da vaga do partido para as próximas eleições, para um candidato praticamente desconhecido, que soube mobilizar tendências novas: uma plataforma pacifista, com suporte pesado de blogs e sites sociais no estilo MySpace e Orkut.

No Brasil o fenômeno ainda não se firmou, mas acho que nas próximas eleições (2010), o peso da Web e dos blogs se fará sentir. Este tipo de propaganda, com os blogs, traz de volta um componente importante que praticamente desapareceu das campanhas atuais, que é o “boca a boca”, o envolvimento das pessoas com a campanha. O candidato que souber se posicionar colherá os frutos.

Uma observação final: procurei um link para colocar a respeito da derrota de Liebermann, pesquisando pela frase “liebermann lost nomination” no Google. De 10 respostas da primeira página referenciando o tema, 8 eram de blogs, e apenas duas da mídia tradicional. Coincidência?


Estação Carandiru e PCC

18/08/2006

Terminei de ler ontem de noite, durante o vôo para Uberlândia, o livro “Estação Carandiru”, do Dr. Dráuzio Varella. É um livro impressionante, com imagens fortes. Terminei de ler o livro com uma sensação dúbia. Não há como se deixar envolver pelo ambiente da prisão, que segue normas rígidas, diferentes das que estamos acostumados; às vezes extremamente justas, às vezes, extremamente cruel. A impressão que fica é de que estamos lidando com pessoas de outro planeta, para as quais os critérios de julgamento da sociedade não se aplicam.

Em tempos de PCC, a leitura se torna ainda mais importante. Acho que o próprio Dráuzio se surpreenderia com a mudança do ambiente da cadeia desde os tempos do Carandiru até hoje. E olha que fazem menos de 10 anos. Muito do que o PCC faz pode ser entendido quando se aprende como funciona a cadeia, e o quanto deste funcionamento depende do próprio trabalho – e da boa vontade – dos presos. Mas por outro lado, me parece evidente que o PCC é um fruto do oportunismo, uma distorção das próprias regras da cadeia. Vou explicar porquê.

Em Carandiru, vemos como o equilíbrio frágil da cadeia se mantém. Os funcionários sabem que dependem dos sentenciados, e se aproveitam da desunião destes para manter a cadeia funcionando. A cadeia vive uma lei individualista; o equilíbrio se garante por maiorias frágeis, como a da faxina, e pela lei do mais forte. Por exemplo, a faxina de cada pavilhão é independente, e um não se mete com a vida do outro.

Já o PCC – pelo pouco que li, incluindo um depoimento do Marcola – transcende esta organização frágil, e cria uma rede mais rígida. O motivo alegado é melhorar as condições do sistema carcerário. Seria bom se não fosse trágico. O motivo real é outro: o exercício do poder, pelo prazer de exercê-lo.

Em Carandiru, aprendemos que malandro que é malandro só respeita uma lei: a lei do mais forte. E que um grupo é mais forte que um indivíduo. Toda cadeia funciona com base nisso. O PCC se aproveita deste princípio. É a lei da cadeia tentando invadir as ruas.